Londres e São Paulo: O Que a Construção Civil nos Ensina

Por Antonio de Sousa Ramalho – Presidente do Sintracon-SP
Durante minha estadia em Londres visitei diversos canteiros de obras com um objetivo simples: entender, na prática, como vive o trabalhador da construção civil inglesa e comparar com a realidade que conhecemos em São Paulo.
O que encontrei não confirma os estereótipos e merece reflexão.
Salários altos… e outra realidade
Um operário em Londres pode receber, em média, 5.340 libras por mês valor que pode ultrapassar R$ 35 mil dependendo do câmbio.
À primeira vista, impressiona.
Mas salário não pode ser analisado isoladamente. O custo de vida é extremamente elevado: aluguel, transporte e alimentação consomem grande parte do rendimento. O pagamento é semanal e não existe 13º ou 14º salário por lei.
Ou seja: ganha-se mais, mas sobra menos do que muitos imaginam.
Trabalha-se por mais tempo
Para se aposentar na Inglaterra é necessário:
- Ter entre 66 e 67 anos
- Cumprir cerca de 35 anos de contribuição
É um modelo diferente do brasileiro. Não é melhor nem pior é outro sistema, que exige cuidado antes de comparações simplistas.
A realidade dentro das obras
O ponto mais surpreendente foi a estrutura oferecida ao trabalhador.
Em muitas obras:
- Não há refeitório
- Não existe café da manhã fornecido
- Trabalhadores comem sanduíches trazidos de casa
- Sentam-se em bancos ou praças
- Não há local adequado para guardar marmitas
- Em alguns casos a segurança é insuficiente
- Muitos seguem trabalhando mesmo machucados
Para quem imagina um padrão europeu sempre superior, o choque é imediato.
O que construímos em São Paulo
No Brasil especialmente em São Paulo avançamos muito através da negociação coletiva e da organização sindical.
Hoje temos:
✔ Padaria na obra com pão e fruta
✔ Lanche da tarde
✔ Projeto Toalha garantindo higiene
✔ Refeitório estruturado
✔ Normas rígidas de segurança
✔ 13º salário, FGTS e aviso prévio
✔ Liberdade sindical com acesso ao canteiro
Esses direitos não nasceram espontaneamente.
Foram conquistados.
Quem constrói Londres
Cerca de um terço da mão de obra é brasileira principalmente mineiros e goianos. Há também muitos indianos e marroquinos.
A construção civil mundial é sustentada por imigrantes.
Conversando com alguns trabalhadores ouvi uma frase simples:
“Então venha pra cá, porque aqui isso não existe.”
Foi uma brincadeira mas também um alerta.
A verdadeira comparação
Não existe modelo perfeito.
Londres paga mais.
O Brasil protege mais.
O desafio não é escolher entre um ou outro.
É conquistar salários melhores sem abrir mão da dignidade, da segurança e da organização coletiva.
O trabalhador da construção civil merece respeito em qualquer parte do mundo.
E essa reflexão precisa partir de fatos não de ilusões.
Antonio de Sousa Ramalho
Presidente do Sintracon-SP (Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil de São Paulo)









